Autoridades Moçambicanas Não Respondem a Cheias Causadas por Barragens Estrangeiras: Negligência ou Impotência?

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Autoridades Moçambicanas Não Respondem a Cheias Causadas por Barragens Estrangeiras: Negligência ou Impotência?

A expressão “autoridades moçambicanas não respondem a cheias” tem circulado com força nas redes sociais e na imprensa local, sobretudo em contexto de inundações generalizadas no sul e centro de Moçambique. O debate gira em torno de saber se a resposta do Estado é insuficiente por falta de capacidade, por atrasos na coordenação ou por limites estruturais ligados a decisões tomadas em barragens de países vizinhos. Este tema é particularmente relevante em 2026, quando o país enfrenta uma das épocas chuvosas mais intensas dos últimos anos, com milhares de pessoas deslocadas e infraestruturas críticas sob pressão.

Moçambique está inserido numa bacia hidrográfica partilhada com vários países, incluindo a África do Sul e outros vizinhos, onde barragens como a de Senteeko (na África do Sul) desempenham um papel central na regulação de caudais que depois chegam ao território moçambicano. Quando essas barragens realizam descargas fortes, por causa de chuvas intensas ou risco de rutura, o impacto se sente imediatamente em zonas baixas de distritos como Xinavane, Magude, Manhiça e Marracuene, na província de Maputo. Nesse cenário, a pergunta que muitos cidadãos colocam é se as autoridades moçambicanas têm realmente condições para agir com rapidez e eficácia, ou se estão, de facto, atrasadas na resposta.

Em termos práticos, as autoridades moçambicanas têm vindo a activar mecanismos formais de gestão de risco de desastres, como o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) e a Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos (DNGRH). Essas instituições monitorizam níveis de água, emitem alertas e coordenam evacuações e centros de acomodação. Em algumas situações, as autoridades já ordenaram a retirada imediata de populações em zonas de risco, por exemplo, quando foi detectado agravamento da erosão numa barragem sul‑africana com potencial de rutura. No entanto, a complexidade aumenta quando as decisões sobre descargas são tomadas fora do país, limitando o grau de controlo moçambicano sobre o volume de água que chega aos rios locais.

Outro ponto importante é o contexto financeiro e logístico. Relatórios recentes indicam que o Governo enfrenta um défice significativo de recursos para responder à actual época chuvosa, precisando de montantes muito superiores aos disponíveis para garantir assistência humanitária, apoio a deslocados e manutenção de serviços básicos. Isso significa que, mesmo quando há vontade política de actuar, a capacidade operacional pode ser reduzida, sobretudo em áreas remotas onde estradas ficam cortadas e comunicações se tornam difíceis. Nesse contexto, a sensação de que “as autoridades moçambicanas não respondem a cheias” pode resultar tanto de atrasos reais como de limitações objectivas de recursos e coordenação.

Por outro lado, há sinais de que o Estado está a procurar melhorar a resposta. O Presidente da República orientou a criação de uma Sala de Operações para centralizar a coordenação entre ministérios e garantir uma resposta mais célere às necessidades das populações afectadas. Além disso, o Governo tem apelado à colaboração do sector privado e de parceiros internacionais, que já estão a mobilizar equipas de resgate, suprimentos e apoio técnico. Esses esforços mostram que a situação não é apenas de paralisia, mas de um sistema sob forte pressão, a tentar adaptar‑se a um cenário de cheias cada vez mais intensas e previsíveis.observador+2

Ainda assim, persistem críticas legítimas sobre comunicação, transparência e velocidade de decisão. Em muitos casos, as comunidades só recebem informação tardia sobre riscos de descargas ou rutura de barragens, o que aumenta o sentimento de abandono e de impotência. A percepção de negligência também se alimenta quando a ajuda chega de forma desigual, com algumas localidades assistidas rapidamente e outras ficando isoladas durante dias. Essas desigualdades reforçam a ideia de que as autoridades moçambicanas não respondem a cheias de forma equitativa, mesmo que não seja essa a intenção.

Portanto, a questão de saber se as autoridades moçambicanas não respondem a cheias causadas por barragens estrangeiras envolve tanto limites estruturais como desafios operacionais. A gestão de rios transfronteiriços, a dependência de decisões tomadas noutros países, a escassez de recursos financeiros e a dificuldade de acesso a zonas remotas tornam a resposta mais complexa do que muitos cidadãos gostariam de ver. Uma visão realista aponta para a necessidade de reforçar sistemas de alerta precoce, fortalecer a cooperação internacional em gestão de bacias hidrográficas e investir em infraestruturas mais resilientes, sem cair em acusações generalizadas que não ajudem a construir soluções concretas.

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